domingo, 22 de agosto de 2021

(In)Consciência



Para mau entendedor...

Quando o negócio da horta do Frei Paulo firmou, ele resolveu construir um lugar onde pudesse atender confissões, missas, casamentos e batizados. Oscar, mestre-de-obra do povoado, tocou a construção. Com pouco a casa foi tomando forma, como o padre queria: simples, grande, muitos quartos e uma varanda na frente. No salão, arrumava a capela.
O lugar era quente, por isso resolveu colocar um forro de bambu trançado ao invés de laje de concreto. Material não faltava na região, difícil era achar quem trançasse. Indicaram Lulu, que vivia de fazer peneira e forro. Ele custou a vir tratar o serviço. Andava muito apertado de encomenda. Dizia à mulher que não sabia como havia de ser depois que ele morresse, pois ninguém estava treinado no ofício. 
Lulu olhou a casa, tirou medida, calculou e deu o preço. Mal conseguiu disfarçar o susto quando o padre aceitou a proposta sem regateio. Frei Paulo não se importava com preço, mas fazia questão da qualidade do serviço e do prazo de entrega. Lulu perguntou se um mês estava bom, o padre achou pouco; deu dois para que o trabalho fosse feito sem aperto. Assim se cortaria o bambu na lua certa, evitando caruncho. O artesão achou melhor, a minguante ainda demorava duas semanas, ia ter que esperar.
No dia combinado, chegou a primeira remessa de bambu. Lulu tirava a parte despontada, media todas do mesmo tamanho e rachava no meio com uma foice afiada. Depois pegava um macete, batia os nós em cima de um toco e abria as tiras. Quando reunia material suficiente é que começava a trançar. Principiava no centro do forro, usando só o lado verde da taquara, de modo a formar um quadrado. Então vinha com outras do lado contrário, com o verde do centro realçando no meio de tanto branco. Trançava assim por muito tempo, entremeando cada lado do bambu, continuando até fechar o forro.  
Frei Paulo sabia que o trabalho era demorado, mas logo na primeira semana, viu que o serviço não acabaria tão cedo. Lulu, volta e meia, abria o bornal e puxava de lá uma garrafa de pinga. Na hora do almoço, aceitava a cachaça do padre “pra variar”. De gole em gole ia ficando lerdo, não raro dormia em cima da esteira com o trabalho repetitivo.
Frei Paulo alertava para o perigo do álcool, saúde e trabalho comprometidos. Poderia perder a destreza nas mãos; se sentisse um amargume na boca era sinal de que o fígado já não estava aguentando. Mas os conselhos entravam por um ouvido e saiam pelo outro. Lulu bebia cada vez mais. Dizia que tudo tinha dado errado na vida, só bebendo podia esquecer. 
Quando os forros ficaram prontos, dois meses depois do prazo combinado, tinham chegado ao fim o estoque de cachaça do padre e sua esperança de que os conselhos dados valessem alguma coisa.
No lugarejo vivia também Maria Rita. Já encharcada de cachaça, bebia álcool puro. Ultimamente mal conseguia andar. Cambaleava e caía, quase todo dia tinham que leva-la até aonde morava. O fígado não aguentou, ela começou a inchar, nada parava no estômago. Não demorou muito, morreu.
O dia do velório da Maria Rita coincidiu com o casamento de uma família do lugarejo. O padre rezou pela alma da falecida junto com poucas pessoas presentes, depois realizou o casamento. Na festa que se seguiu, deu com Lulu, que já estava bêbado. Resolveu aconselhar mais uma vez.  
– Então, Lulu, não bebeu muito?
– É o jeito, né padre? A gente não pode desfeitar os dono da festa.
– E quando não tem festa? Domingo passado te levaram carregado, eu soube...
– Passei da medida. Acontece, né mesmo?
– Você não acha que precisa tomar mais cuidado? 
– Cuidado com que?
O padre foi mais direto:
– Olha, Lulu. Você é um homem bom, as pessoas te apreciam. Ninguém por estas bandas trabalha tão bem com taquara. Na sua falta, quem vai fazer as coisas?
Lulu ficou pensativo. O padre se animou.
– Uma cachacinha na hora do almoço é até bom, abre o apetite, desentope as veias. Mas quando passa da medida, prejudica. Parando de beber, você ainda pode viver muitos anos, desfrutar das pessoas amigas. Agora, bebendo desse jeito... não se sabe.
Aquela dúvida deixou o homem cismado. Largou o copo, ficou em silêncio. Frei Paulo continuou a investida:
– Você não viu o que aconteceu com a Maria Rita?
– O que que teve com ela?
– Então não ficou sabendo?
– Não senhor.
– Morreu. Fui ao velório hoje.
– Coitada da Maria Rita. Ninguém me falou.
Ainda mais pensativo, o homem perguntou:
– E de que incômodo foi mesmo que ela morreu?
A paciência do padre se esgotou:
– Adivinha! Pois não foi de tanto beber que a infeliz acabou morrendo? É isso que estou tentando te explicar, homem de Deus!
Lulu ficou paralisado. Pensou com o olhar longe. Quando abriu a boca, espantado, foi para perguntar:
– Ela engasgou, sô padre?

Texto adaptado do livro “Casos de Minas”, de Olavo Romano.
Págs. 175 e 178.
Edição: 1982

Livro - Casos de Minas

A memória de Minas Gerais recuperada em histórias e "causos" populares. Textos fluentes e com humor. O autor vai no fundo de sua memória e de lá resgata certas coisas que ele gostaria que não morressem: um som particular, um cheiro impregnado, bichos, gentes, situações. Ele não cai na arapuca das descrições, narra apenas. O estilo é limpo, sem maquiagem, e encaixa perfeitamente com as histórias. A sabedoria, a malandragem, a essência do homem de interior – está tudo aqui, inteiro e intacto. E sua linguagem é respeitada, sem deformações gráficas.

2 comentários:

  1. Só mesmo nas GERAIS aconteceram e acontecem causos assim e tão be narrados pelo Olavo Romano. Publica outros.

    Abraço do Universo

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  2. Muito bom! Eu fui lendo e tentando atinar com o desfecho... que acabou num risada genuína. Adorei!
    Abraço!

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