Mostrando postagens com marcador Minas Gerais. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Minas Gerais. Mostrar todas as postagens

sábado, 11 de dezembro de 2021

Sotaque mineiro

O sotaque das mineiras
Autor: Carlos Drummond de Andrade

Isis Valverde
Atriz mineira
Imagem: facebook.com

O sotaque das mineiras deveria ser ilegal, imoral ou engordar.
Porque, se tudo que é bom tem um desses horríveis efeitos colaterais, como é que o falar lindo (das mineiras) ficou de fora? Porque, Deus, que sotaque!

Mineira deveria nascer com tarja preta avisando: ouvi-la faz mal à saúde. 
Se uma mineira, falando mansinho, me pedir para assinar um contrato doando tudo que tenho, sou capaz de perguntar: – Só isso? Assino achando que ela me faz um favor.
Eu sou suspeitíssimo. Confesso: esse sotaque me desarma. 
Os mineiros têm um ódio mortal das palavras completas.
Preferem abandoná-las no meio do caminho, não dizem "pode parar", dizem "pó parar"; não dizem "onde eu estou?", dizem "ôncôtô?".
Os não-mineiros, ignorantes nas coisas de Minas, supõem, precipitada e levianamente, que os mineiros vivem linguisticamente falando apenas uais, trens e sôs. Digo-lhes que não. Mineiro não fala que o sujeito é competente em tal ou qual atividade, fala que ele é bom de serviço. Pouco importa que seja um juiz ou jogador de futebol.

Mineiras não usam o famosíssimo "tudo bem". Sempre que duas mineiras se encontram, uma delas há de perguntar pra outra: – "Cê tá boa?". Para mim isso é pleonasmo! Perguntar para uma mineira se ela tá boa é desnecessário.
Há outras. Vamos supor que você esteja tendo um caso com uma mulher casada. Um amigo seu, se for mineiro, vai chegar e dizer: – "Mexe" com isso não, sô (leia-se: sai dessa, é fria, etc.). O verbo "mexer", para os mineiros, tem os mais amplos significados. Quer dizer, por exemplo, trabalhar. Se lhe perguntarem com o que você mexe, não fique ofendido. Querem saber o seu ofício.

Os mineiros também não gostam do verbo conseguir. Aqui ninguém consegue nada. Você não dá conta. "Sôcê" (se você) acha que não vai chegar a tempo, você liga e diz: – "Aqui", não vou dar conta de chegar na hora, não, "". Esse "aqui" é outro que só tem aqui. É antecedente obrigatório, sob pena de punição pública, de qualquer frase. É mais usada, no entanto, quando você quer falar e não estão lhe dando muita atenção. É uma forma de dizer: – Olá, me escutem, por favor. É a última instância antes de jogar um pão de queijo na cabeça do interlocutor.

Mineiras também não dizem "apaixonada por", dizem, sabe-se lá por que, "apaixonada com". Soa engraçado aos ouvidos forasteiros. Ouve-se a toda hora: – Ah, eu apaixonei "com" ele… Ou: Sou doida "com" ele (ele, no caso, pode ser você, um carro, um cachorro). Elas vivem apaixonadas com alguma coisa.

Que os mineiros não acabam as palavras, todo mundo sabe. É um tal de "bonitim", "fechadim", e por aí vai. Já me acostumei a ouvir: – E aí, "vão?". Traduzo: – E aí, vamos? Não caia na besteira de esperar um "vamos" completo de um mineiro. Não ouvirá nunca!
Eu preciso avisar à língua portuguesa que gosto muito dela, mas prefiro, com todo respeito, a mineira. Nada pessoal. Aqui certas regras não entram. São barradas pelas montanhas. Por exemplo, em Minas, se você quiser falar que precisa ir a um lugar, vai dizer: – Eu preciso "de" ir. Onde os mineiros arrumaram esse "de", aí no meio, é uma boa pergunta. Só não me perguntem. Mas que ele existe, existe. Asseguro que sim. Deixa eu repetir, porque é importante. Em Minas ninguém precisa ir a lugar nenhum. Entendam… você não precisa ir, você precisa "de ir". Você não precisa viajar, você precisa "de viajar". Se você chamar sua filha para acompanhá-la ao supermercado, ela reclamará: – Ah, mãe, eu preciso "de" ir?
No supermercado, o mineiro não faz muitas compras, ele compra um "tanto de coisa". O supermercado não estará lotado, ele terá um "tanto de gente". Se a fila do caixa não anda, é porque "tágarrado" ("está agarrado") lá na frente. Entendeu? Agarrar é agarrar, ora!
Se, saindo do supermercado, a mineirinha vir um mendigo e ficar com pena, suspirará: – "Ai, gente, que dó".

É provável que a essa altura o leitor já esteja apaixonado pelas mineiras. Não vem "caçar confusão" pro meu lado. Porque devo dizer, mineiro não arruma briga, mineiro "caça confusão" Se você quiser dizer que tal sujeito é arruaceiro, é melhor falar, para se fazer entendido, que ele "vive caçando confusão".
Para uma mineira falar que algo é muitíssimo bom, vai dizer: – "Ô, é sem noção"! Só não esqueça, por favor, o "Ô" no começo, porque sem ele não dá para dar noção do tanto que algo é sem noção, entendeu?
Capaz… Se você propõe algo, ela diz: – "Capaz"!!! Vocês já ouviram esse "capaz"? É lindo! Quer dizer o quê? Sei lá, quer dizer "cê acha que eu faço isso!?" com algumas toneladas de ironia…
Se você ameaçar casar com a Gisele Bundchen, ela dirá: – "Ô dó docê". Entendeu? Não? Deixa para lá. É parecido com o "nem…". Já ouviu o "nem…"? Completo ele fica: – "Ah, nem"… O que significa? Significa, amigo leitor, que a mineira que o pronunciou não fará o que você propôs de jeito nenhum. Mas de jeito nenhum mesmo. Você diz: – Meu amor, "" anima de comer um tropeiro no Mineirão? Resposta: – "Nem…". Ainda não entendeu? Uai, nem é nem.

A propósito, um mineiro não pergunta: – Você não vai? A pergunta, mineiramente falando, seria: – "" não anima "de" ir? Tão simples... o resto do Brasil complica tudo! É, ué, cês dão umas volta pra falar os trem…
Falando em "ei…", as mineiras falam assim, usando, curiosamente, o "ei" no lugar do "oi". Você liga, e elas atendem lindamente:  "Eiiii!!!", com muitos pontos de exclamação, a depender da saudade…

Tem tantos outros… O plural, então, é um problema. Um lindo problema, mas um problema. Sou, não nego, suspeito. Minha inclinação é para perdoar, com louvor, os deslizes vocabulares das mineiras. Aliás, deslizes nada. Só porque aqui a língua é outra, não quer dizer que a oficial esteja com a razão. Se você, em conversa, falar: – Ah, fui lá comprar umas coisas… – "Ques coisa?" – ela retrucará. O plural dá um pulo. Sai das coisas e vai para o que.
Ouvi de uma menina culta um "pelas metade", no lugar de "pela metade". E se você acusar injustamente uma mineira, ela, chorosa, confidenciará: – Ele pôs a culpa "ni mim". A conjugação dos verbos tem lá seus mistérios, em Minas. Ontem, uma senhora docemente me consolou: "preocupa não, bobo!". E meus ouvidos, já acostumados às ingênuas conjugações mineiras, nem se espantam. Talvez se espantassem se ouvissem um: "não se preocupe", ou algo assim.

A fórmula mineira é sintética. E diz tudo. Até o tchau, em Minas, é personalizado. Ninguém diz tchau pura e simplesmente. Aqui se diz: "tchau pro cê", "tchau pro cêis". É útil deixar claro o destinatário do tchau.

Trem bão demais, sô…

Nota:
 
Tem mais algumas expressões do mineirês que escuto (e digo) com frequência:
 . Uma variação e alternativa do "uai", com as mesmas possibilidades de uso.
 “Tiquim” (Pouquinho) nas situações em que se deseja dar a ideia de muito pouco. Mineiro não pede um pouco de café, ele diz que quer "só um tiquim de café". 
“Pá raí” (Para raio) dizendo que algo é muito. Se algum lugar é quente, se diz que “é quente pá rai”. Se está muito tarde, está “tarde pá raí”.
 Cê besta (Você é besta) para situações em que não se deve entrar ou atitudes que não se deve fazer. É também uma forma de dizer "de jeito nenhum!". Se alguém convida um mineiro para entrar num jardim onde tem um cachorro bravo, ele vai te responder um "cê besta!" dizendo algo como "eu não faço isso de jeito nenhum e se você fizer é louco". Se pedir dinheiro emprestado para um mineiro com quem não se tenha muita, muita, muita intimidade, quase certamente ouvirá como resposta um simples "cê besta!" afirmando que não te emprestará dinheiro de jeito nenhum. Algo tão impensável para o mineiro que ele nem se dá ao trabalho de estender a resposta com explicações ou condições. Para um mineiro, o "cê besta!" é o não definitivo, sem direito a apelação.
Se o mineiro disser "cê besta, sô!" é bom o interlocutor ficar atento, pois o "sô", neste contexto, é uma afirmação de indignação, um aviso de que o mineiro está no limite de uma atitude violenta.
 Arreda ("Afastar" ou "Arrastar"). Alguns exemplos: "Arreda (afasta) um pouco pra eu passar" ou "Arreda (arrasta) essa geladeira um pouco pra lá".

Obs.: Assim como as mineiras, as gaúchas também têm um hipnótico jeito de falar cantando, que vai envolvendo e entorpecendo o ouvinte, como se fossem sereias.
Se você conhece outras expressões típicas do mineirês, escreva elas nos comentários desta postagem, com a devida grafia e tradução do contexto. 

Vídeos 

Dois exemplos do jeitim de falar das mineiras:

A atriz Mariana Rios em entrevista com o Jô Soares
(9:30)
https://www.youtube.com/watch?v=xUpmhJVzaig  

A atriz Isis Valverde em entrevista com o Jô Soares
(15:00)
https://www.youtube.com/watch?v=SXkeluOVUyc   

domingo, 14 de março de 2021

Acolhedora Gerais

Imagem: https://www.guiadasemana.com.br/destinos-romanticos-em-minas-gerais  

Minas Gerais foi eleita uma das 10 regiões mais acolhedoras do mundo pelo Traveller Review Awards 2021, prêmio promovido pela empresa Booking.com. 
O resultado foi obtido pelas boas avaliações dos viajantes na plataforma, que levaram em consideração a hospitalidade, atendimento, limpeza e a localização dos lugares visitados.

O estado mineiro foi o único do Brasil a entrar no ranking. É a primeira vez que um local do país figura no prêmio, que é realizado anualmente. Minas Gerais se destacou nos destinos históricos, na culinária e na simpatia.

Os locais eleitos foram:
• Taitung Country (Taiwan)
• Prešovský kraj (Eslováquia)
• Oberösterreich (Áustria )
• Tasmânia (Austrália)
• Canterbury (Nova Zelândia)
• Nova Scotia (Canadá)
• Chubut (Argentina)
• O’Higgins (Chile)
• Iowa (Estados Unidos)
• Minas Gerais (Brasil)


Em 2019, a culinária mineira rendeu à capital do estado, Belo Horizonte, o título de Cidade Criativa da Gastronomia, concedido pela Unesco. Culturalmente, a capital mineira também é destaque como detentora do maior complexo cultural do Brasil – o Circuito da Liberdade – que concentra 15 espaços entre museus, centros de cultura e de formação.


O estado possui o maior número de Patrimônios Culturais da Humanidade declarados no Brasil pela Unesco:
• Centro Histórico de Ouro Preto;
• Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos (Congonhas);
• Centro Histórico de Diamantina;
• Conjunto Moderno da Pampulha (Belo Horizonte).
Possui o teatro mais antigo em atividade das Américas: a Casa da Ópera – Teatro Municipal de Ouro Preto – aberto ao público em 6 de junho de 1770. Abriga também o maior museu a céu aberto do mundo, Inhotim, na cidade de Brumadinho.
No campo de paisagens naturais, reúne três dos cinco maiores picos do país (Pico da Bandeira em Alto Caparaó; Pico da Pedra da Mina em Passa Quatro e Pico das Agulhas Negras em Bocaina de Minas); possui a terceira maior cachoeira do Brasil – a do Tabuleiro – localizada em Conceição do Mato Dentro e abriga o terceiro maior complexo de lagoas do Brasil dentro do Parque Estadual do Rio Doce.

Fontes de referência:

Tribuna de Minas
Minas Gerais é eleita uma das dez regiões mais acolhedoras do mundo 

Guia Viajar Melhor
Minas Gerais é eleita uma das 10 regiões mais acolhedoras do mundo

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

300 anos de Minas Gerais

3 séculos de existência | 586,5 Km² de paixão

A Capitania das Minas foi criada em 2 de dezembro de 1720, portanto hoje, 2 de dezembro de 2020, Minas Gerais celebra 300 anos de existência como instituição.
A notícia da descoberta de ouro na região da atual Minas Gerais mal tinha chegado, em 1707, ao Palácio dos Governadores, em Salvador (então capital da Colônia do Brasil, pertencente ao Império Português), e João de Lencastro, Governador-Geral do Brasil, temendo problemas, agiu com cautela determinando ações para isolar rapidamente a zona dos achados e que se fizesse o possível para fechar os caminhos de acesso e garantir o completo controle sobre a região; escrevendo de imediato ao rei de Portugal, Pedro II, para informar do achado e das providências. 
Não foi possível realizar tal pretensão! Na medida em que surgiam novas jazidas de ouro, um número cada vez maior de colonos e portugueses migraram para a região. Quando apareceram também os diamantes – mais raros e caros – houve um intenso fluxo de aventureiros em direção à promessa de fortuna rápida nas Minas Gerais, incluindo colonos de diversas partes do Brasil e outras colônias portuguesas espalhadas no planeta, portugueses da metrópole europeia, além de estrangeiros oficializados e clandestinos. 
A estes homens livres somou-se um número crescente de africanos escravizados. O sistema escravista de Minas Gerais no século 19 foi o maior que existiu em toda a história da instituição servil no Brasil. Durante este século a população escrava dessa região superou a de outras áreas brasileiras e apresentou um rápido crescimento: de aproximadamente 170 mil escravos em 1819, passou em 1872 a mais de 370 mil (numa população total de aproximadamente 2.040.000 na capitania).
Obs: O censo demográfico do Brasil de 1872 foi a primeira operação censitária realizada em território brasileiro, na época um império.


Fontes de referência:

G1 Minas Gerais
A Sedição de Vila Rica e a criação da Capitania das Minas

Wikipédia
Censo demográfico do Brasil de 1872
3 séculos de mineiridade

Histórico da evolução do território de Minas Gerais

 Em 1800, definiu-se a divisa com o Espírito Santo, a qual foi estendida até a Serra dos Aimorés. 
 Em 1816, as atuais regiões do Triângulo e Alto Paranaíba foram incorporadas a Minas Gerais – transferidas da Capitania de Goiás.
 Em 1824, o atual Noroeste de Minas deixou de pertencer a Pernambuco e foi incorporado a Minas Gerais. 
 Em 1843, a divisa com o Rio de Janeiro, estabelecida sem muita precisão desde 1709, foi fixada.
 Em 1857, o Vale do Jequitinhonha foi definitivamente transferido da Bahia para Minas Gerais.


Capitania do Rio de Janeiro
Imagem: https://pt.wikipedia.org/wiki/Capitania_do_Rio_de_Janeiro 

Capitania de São Paulo e Minas de Ouro

Capitania de Minas Gerais e outras no Brasil em 1720

O atual território de Minas Gerais e suas divisas

Carta Régia que declara a separação das capitanias de São Paulo e das Minas
Transcrição do texto:
"Carta de 21 de fevereiro de 1720 na qual se declara que se tem resoluto criar-se hum novo governo em S. Paulo separado do de Minas, e que para se evitar a disputa entre os confins das Minas Gerais com o governo do Rio, Bahia e Pernambuco, tomasse ele, governador conde de Assumar, as informações necessárias sobre este particular, dando conta do que se assentar com o seu parecer, e se puder, tomar a resolução que for mais conveniente. (Maço 1º, fl. 233.)"

Em 1816, a atual região do Triângulo Mineiro foi incorporada a Minas Gerais, transferida da Capitania de Goiás. Estas terras eram conhecidas na época como Sertão da Farinha Podre, que estava localizado nos limites dos rios Paranaíba (ao norte) e Grande (ao sul). 
Credita-se tal transferência a Ana Jacinta de São José, conhecida como "Dona Beja". Ela chegou a Araxá (MG) com sua mãe e avô em 1805 e, à medida que se tornava moça, sua beleza cativou muitos admiradores. Em 1815, a bela jovem – então com apenas 13 anos – é raptada pelo ouvidor do Rei, Joaquim Inácio Silveira da Motta. Seu avô acabou morto pelos militares da escolta do ouvidor ao tentar evitar o rapto da neta. O ouvidor foge de Araxá e leva sua refém para a vila de Paracatu – então pertencente à Capitania de Goiás – onde podia contar com mais aliados para protegê-lo.
No ano seguinte, para fugir do processo judicial aberto devido ao assassinato do avô de Ana Jacinta, o ouvidor solicitou ao soberano português D. João VI que transferisse o Sertão da Farinha Podre (atual Triângulo Mineiro) da jurisdição de Goiás para Minas Gerais, pois tinha boas relações com o governador de Minas e não com o de Goiás. A transferência foi concedida e, tempos depois, foi arquivado o processo judicial contra o ouvidor.
Daí vem a tese de que a beleza de Dona Beja foi tão extraordinária que modificou o mapa do Brasil.


Fonte de referência:

Último Segundo
Com descoberta de ossada, Dona Beja volta a virar estrela em Minas


Fontes de referência:

G1
Minas 300 anos