segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Mosquitos não sonham


Psychoda ( Mosca de banheiro )
Imagem: http://www.dedetizadoraab.com.br/pragas_mosca_de_banheiro.asp  

Diptera
Autor: Raphael Gomes

Um inseto – minúsculo, mínimo – pousou nas páginas do livro. Como é possível? Tão pequeno, complexo, e assim tão perfeito. Uma maquininha perfeita. Não deve ter mais do que um milímetro. Preto com as anteninhas curtas e retas que vibram ao ir tateando o papel como se tamborilasse as letras impressas. Ele vai sondando a folha, as palavras, substantivos, pronomes...

É tarde de sábado, e enquanto eu balanço na rede, sinto o cheiro da terra dos vasos que a vizinha idosa rega depois do almoço contornar a parede que separa as varandas e chegar até aqui como se desse a volta justo por minha causa. São dois antúrios, uma avenca judiada por muito sol, três bromélias e uma escorrida samambais-chorona, e vários vasinhos de violetas, coloridas, do rosa pálido ao roxo escuro. Ou pode ser a chuva que vem de algum lugar e chega sempre do poente que fica no outro lado do prédio, então eu costumo ser apanhado se surpresa quando os pingos já molham meus tênis colocados para secar no muro.

Da varanda do apartamento dá para ouvir até a brincadeira das crianças quatro andares acima. Aos pés da rede o cachorro dorme em profundo desapego da realidade. O inseto para sobre uma palavra, dá meia-volta, e vai atrás de mais uma. Suas antenas têm uma faixa branca no meio. Dois milímetros, ele deve ter dois milímetros. Como é possível que caibam dentro coração, pulmão, rins... será que os inseto têm rins? Não me lembro, mas eles respiram por pulmões. Como pode tudo isso dentro de um animal tão pequeno?

É uma coisinha que, se eu fechar o livro e ele não for esperto, se esmaga com a maior facilidade. Se eu fosse criança, acharia impressionante. Na escola sofri por levar a sério as brincadeiras dos outros. Uma vez me convenceram de que a freira alemã que estava de visita tinha os cabelos raspados por debaixo do hábito e resolvi acertar sua cabeça com a bola do jogo de queimada para derrubar aquele chapéu e descobrir a verdade. Ela tinha um cabelo comprido, muito bonito e loiro. Na ocasião meus pais tiveram que ir ao colégio ouvir sermão da diretora. Em casa um falatório só!

Em compensação, eu possuía uma vantagem sobre as outras crianças, eram os olhos: um castanho e um verde, o esquerdo. E isso me deu sempre a certeza de que eu era diferente, e ao me sentir especial, me sentia no direito de fazer coisas proibidas. Eu era uma raridade, como um tigre sem listras ou um papagaio que fala mandarim, e teria o direito de não seguir certas regras que deveriam ser obedecidas pelas pessoas comuns. Mas era uma pena que os outros não concordassem e eu tivesse que amargar castigos. Os castigos tinham um sabor de injustiça que me elevava moralmente em relação ao resto do mundo. E eu saía deles com o nariz para o alto, o que rendia da minha avó o comentário: Essa criança é muito saliente! Ou espivetada, como diziam.

Como quando roubei uma fita pornô do armário do irmão de um amigo e ficamos, aquele monte de alunos da oitava série, reunidos na casa dele em frente à TV quando seus pais viajaram: Ah!, eu não faço isso! Dizíamos em meio a cutucões e sacudidas uns nos outros. Mas isso, é claro, eram ideias do fim da infância, e a gente muda mais de opinião que de pele ao longo da vida.

Foi o que aconteceu no presente que me dei no dia do meu aniversário de dezesseis anos, exatos onze anos atrás, e nem foi uma coisa muito boa. Havia sido uma má escolha. Mas existem sempre seres diferentes, mais jeitosos, lábios mais macios, línguas mais pacientes e cheiros melhores que outros. A gente aprende essas coisas e se surpreende de existirem.

E olha como ele ronca. E também peida de vez em quando. Fedido. Esse cão comedor de queijo. Ele já está com cinco anos. Ele não deve perceber o tempo passar, acredito eu. A nossa vida deve acabar sendo mais curta que a dos cães, porque a gente conta os dias. Se a gente não notasse e anotasse o tempo, ele seria eterno até acabar, como aquele poeminha. Assim, a vida dos cães é eterna até alcançar a morte, eu penso. Também o mosquito não deve notar o tempo enquanto passa, ansioso e atarefado, essa enorme página 163.

Voou. É palavra demais para um bichinho tão pequeno...

Embaixo, no segundo andar, a vizinha briga com o filho mais uma vez (é assim quase todas as tardes). Segundo ela, o garoto dá mais importância aos amigos do que a ela e diz que ele e a irmã não ajudam em nada, que ela está trabalhando como uma empregada para eles e que não aguenta mais, que está cansada e vai embora qualquer dia desses (então começa a chorar) e diz que ninguém pensa nela, que ninguém dá a ela o valor que merece...
Depois ela ouve programas da rádio católica na hora do almoço e reza o Pai-Nosso junto com o padre locutor, que tem aquela voz cantada de padre que entoa o final das frases forçando uma maior solenidade.

A chuva começa e sinto na cabeça os respingos dos pingos que batem no mármore do muro. Duas gotas caem sobre o livro, inchando a tinta das letras que nunca mais voltarão ao padrão anterior. Outra pousa na lente dos óculos, a lente do olho verde, quando me viro para conferir o volume da chuva, criando um prisma que fraciona o espectro da luz, mergulhando os fios do poste numa bolha de cores.

O barulho da chuva e a densidade da água me isolam do mundo em torno, dissolvem os gritos das crianças na cobertura e abafam as reclamações da vizinha do apartamento de baixo, além de desligar seu rádio que preconiza doutrinas sãs (ela tem medo de raios). Um bônus no dia de hoje.

Ao completar meus vinte e sete anos essa é a festa que me faço. Odeio os aniversários, fujo dos parentes, tiro até o telefone da parede. Faço assim nos últimos anos, dou um pedaço de gorgonzola de presente para o cachorro, e para mim a solidão de um dia inteiro, coisa muito escassa.

Então chego a esquecer dos dias que tive muito medo. E que se o medo não me olha mais na cara é porque o medo já não tem a força que tinha, ou talvez seja ele que hoje sinta medo, quem sabe. E posso até me achar maior que o medo, o que nunca vai ser verdade, mas é muito bom de se achar.

Pois bem. A chuva, eu só, um livro relido, a repetição de uma data com cada vez menos importância, e uma visita inesperada de duas asas bem pequenas e delicadas: rendadas.

Pequenos prêmios numa tarde de sábado, indiferentes para os cachorros. Olha só ele, agora está sonhando, porque remexe as patas, se chacoalha, se contrai e gane. Deve sonhar que corre atrás de alguma coisa interessante. Uma cadelinha no cio?

O mosquito, imagino, foi se banhar na água acumulada dentro das bromélias da vizinha, onde talvez ele tenha nascido e, quem sabe, onde bote ovos e morra. Uma vida inteira, provisoriamente eterna, numa varanda de apartamento, além de uma aventura na varanda ao lado. Mosquitos não sonham, apenas voam e vibram suas antenas.

Adaptação do texto retirado do livro
Uma cidade inexistente
Juiz de Fora: Editora Funalfa, 2013.

Obs: Postagem realizada mediante prévio contato e autorização do autor.

Para trocar ideias com Raphael Gomes ou adquirir seu(s) livro(s), entre em contato através do e-mail:
raphaelgomesescritor@yahoo.com.br 

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Diptera é uma ordem de insetos, caracterizada pelo tamanho reduzido das asas traseiras e pela proeminência das asas dianteiras. O grupo tem cerca de 120.000 espécies. 
Os Dípteros são um grupo grande e diversificado – que inclui mosquitos, moscas e outros – e seus representantes abundam em indivíduos e espécies em quase todos os lugares.

Fontes de consulta:

Wikipédia
Diptera
http://pt.wikipedia.org/wiki/Diptera 

Wikipédia
Mosca de banheiro
http://pt.wikipedia.org/wiki/Mosca-de-banheiro 

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Livro : Uma cidade inexistente
Foto: Sylvio Bazote

"São contos sobre tudo e sobre nada. Personagens que se repetem, quase imperceptivelmente, possuindo uma universalidade característica da boa literatura. O tédio, a solidão, a luxúria, enfim, sentimentos e circunstâncias que nos levam todos os dias por caminhos que não escolheríamos se fôssemos seguir aqueles ditados pela sociedade. À primeira vista, algumas histórias são cruéis, os personagens amorais. Em um olhar mais atento, percebemos que é exatamente isso, mas colocado como uma crítica ácida aos nossos costumes, nossa sociedade, nossa vida. Na verdade nada é por acaso neste livro."
Lúcia Facco, doutora em literatura comparada pela UERJ 

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