sábado, 3 de dezembro de 2016

A cabeça do Tiradentes


Estátua de Tiradentes
Parte superior do monumento no centro da Praça Tiradentes
( Ouro Preto - MG )
Foto : Sylvio Bazote
( 24 Jan 2014 )

O roubo da cabeça de Tiradentes
Autora: Angela Xavier

Todos conhecem a história da Inconfidência Mineira e seu trágico final. Nosso relato se restringe ao destino da cabeça de Tiradentes.
Depois de morto por enforcamento, ele teve seu corpo esquartejado e colocadas as partes nos locais por onde ele havia passado e falado de suas ideias de liberdade. Era a resposta do governo. Que ninguém mais ousasse se levantar contra a rainha de Portugal! A cabeça, troféu maior, foi salgada, levada para Vila Rica e colocada em uma gaiola presa numa estaca. Era o dia 12 de maio de 1792. No centro da Praça de Santa Quitéria, hoje Praça Tiradentes, ela deveria ficar até que "o tempo a consuma".
Esse fato ocorreu com grande aparato. Tropas de cavalaria se postaram enfileiradas, impondo a ordem e dando um caráter oficial ao evento. O povo se amontoava a certa distância para ver o horrível espetáculo. Na Câmara Municipal, os políticos proferiam discursos exaltando Sua Majestade e maldizendo o "traidor" Tiradentes, que recebera um castigo merecido. Que isto servisse de lição a outros subversivos que ousarem se voltar contra a querida rainha D. Maria I!

E assim se passou. Amaldiçoado pelas autoridades, olhado com temor e admiração pelo povo, Tiradentes cumpriu a sua sina. À tardinha todos se recolheram às suas casas e a praça se esvaziou.
À noite ninguém costumava sair, pois a luz dos lampiões era muito fraca e as pessoas tinham medo de bandidos ou até mesmo de almas penadas. Tudo era silêncio na Praça de Santa Quitéria. Não havia viv’alma por ali. Apenas uma neblina baixa passava lenta, tapando a pouca visão da praça.

Pois nessa fria e escura madrugada a cabeça do Tiradentes foi roubada e escondida em algum lugar onde ninguém jamais a encontrou. Livrou, dessa forma, o alferes da desgraça de ter sua cabeça apodrecendo, em plena praça pública.
Alguns dizem que a cabeça foi embalsamada e colocada numa urna de pedra hermeticamente fechada, depois de ser preenchida totalmente com ouro em pó e enterrada em local desconhecido.
Outros dizem que a cabeça foi roubada por um monge. Ele a guardava numa caixa e retirava de vez em quando para meditar diante dela. Meditação sobre a vida e a morte.
Uma terceira versão diz que Tiradentes tinha uma admiradora que, aproveitando-se da ocasião, sumiu com a gaiola. Sua escrava ficou distraindo o soldado que vigiava a praça, dando-lhe cachaça para beber. 

Fato é que a cabeça original nunca apareceu, mas uma réplica surgiu na Praça Tiradentes, 200 anos depois. Foi quando se homenageou, em 1992, o herói nacional e patrono da Polícia Militar mineira, Tiradentes.
As autoridades planejaram uma festa à altura. Tropas de Dragões saíram a cavalo do Rio de Janeiro pela Estrada Real e foram se revezando pelo caminho.  Homens e cavalos eram trocados até chegarem a Ouro Preto, onde os festejos em praça pública aconteceriam.
A escola de arte local havia providenciado réplicas em gesso do corpo do Tiradentes e da sua cabeça. As partes, braços e pernas foram colocados em pontos estratégicos de todo o centro da cidade. Eram tantas que dariam para formar uns sete corpos. A intenção era impressionar. Pintaram com tinta vermelha nos lugares dos cortes e a tinta fresca ainda pingava pelo chão, dando a impressão terrível de ser sangue.

A cabeça foi colocada dentro de uma gaiola sobre um poste fincado no centro da Praça Tiradentes, bem à frente da estátua do mártir da independência. A banda da Polícia Militar tocou acordes em homenagem ao grande herói nacional. A praça estava cheia, flores foram colocadas aos pés da estátua do Tiradentes, cantou-se o Hino Nacional e os discursos das autoridades exaltavam a grande figura do alferes, exemplo de patriotismo. Terminada a festa pública, a praça foi se esvaziando, a tarde foi caindo, tudo escureceu. Era noite fria e a praça, agora mais iluminada que há 200 anos antes, não tinha o mesmo aspecto macabro.
Naquela noite, uma galeria da cidade havia feito a vernissage de uma exposição sobre Bené da Flauta, extraordinária figura popular que aqui viveu e atuou nos anos 70. Tal evento reuniu artistas e intelectuais e várias pessoas da comunidade, ávidas de recordações dos áureos anos 70 em Ouro Preto.
Lá pelas cinco horas da manhã, dois artistas plásticos da cidade, Gelcio Fortes e José Efigênio Pinto Coelho, chegaram à praça, vindos da exposição. Viram então a cena da praça escura, com a neblina fria se movendo, iluminada pelas luzes dos monumentos públicos com a cabeça do Tiradentes lá no alto do poste, dentro da gaiola.
– Essa cabeça não pode amanhecer aqui! Disse o José Efigênio.
– Ela foi roubada há 200 anos e não amanheceu na praça. Já está quase amanhecendo. Temos que roubar esta cabeça!
O Gê, muito aflito, tentou demovê-lo da ideia, argumentando ser aquela uma festa de militares e autoridades. Qualquer loucura que se fizesse iria acabar mal. Mas não adiantou. O José Efigênio já estava lá no beco do Pilão à procura de uma escada que não encontrou. Decidiu então sacudir o poste, no que foi ajudado pelo Gê. Tanto fizeram que a cabeça caiu, mas ficou presa por uma corda. E agora? O que fazer? Havia uns mendigos dormindo na praça e com eles conseguiram um canivete com que foi cortada a corda. A cabeça de gesso se espatifou no chão. Apressados e nervosos, pois o dia já clareava, os dois juntaram os cacos da cabeça e colocaram na Brasília bege do Gê.
Seguiram para a casa do José Efigênio e bateram à porta. Eram quase seis horas da manhã. Foram atendidos pela esposa dele sonolenta e atordoada com as novidades. Os dois entraram levando os cacos até o fundo do quintal, cavaram um buraco e enterraram a prova do crime. Combinaram que ninguém viu nada e, como há 200 anos atrás, ninguém sabia quem havia sido o autor do roubo da cabeça do Tiradentes. Promessa selada, cada um foi descansar em sua casa, pois a noite havia sido muito longa.
Mas a paz durou pouco. Às nove horas, aproximadamente, a polícia estava na porta da casa do Gê e depois foi a vez do José Efigênio. Ainda sonolentos, os dois artistas foram levados à delegacia.
O delegado era homem vaidoso, vestia-se à moda sertaneja, com cinturão de fivela com cara de cavalo, calça apertada com gorgorão nas laterais, uma camisa xadrez e botas de salto alto.
Ao interrogar nossos artistas, o homem foi duro. Acusou-os de haver roubado um bem público. Aquela cabeça havia sido doada à Polícia Militar e eles foram pegos em flagrante. Algumas pessoas, esperando ônibus do outro lado da praça, viram tudo, e um deles guardou a placa do carro. Quando a polícia começou a investigar o roubo, o carro foi denunciado. Na Brasília do Gê encontraram restos de gesso. Não havia como negar, as provas estavam ali.
José Efigênio ainda tentou explicar ao delegado que eles só haviam repetido o feito histórico de 200 anos atrás, mas o delegado não sabia nada de história e nem queria saber.

A coisa estava nesse ponto quando passou por ali o vereador Flávio Andrade, e quis logo saber o que estava acontecendo. Ciente da situação, levou José à casa dele, onde desenterraram a prova do crime. Aproveitaram para pegar um livro onde estava escrita a história do roubo da cabeça. Telefonaram para o diretor da Escola de Artes que os tranquilizou dizendo que tinha outras cabeças de Tiradentes. Explicaram ao diretor a situação e ele, como amante das artes, gostou daquela "arte" feita pelos dois.
De volta à delegacia, onde havia permanecido o Gê, mostraram ao delegado o livro e pediram que telefonasse ao diretor da Escola de Artes. O delegado assim o fez, no que o diretor lhe disse que existiam outras cabeças e – mentindo – que o roubo fazia parte das comemorações.

Soltos, os dois foram comemorar o sucesso torto de sua louca ação.
De manhã, pessoas que passaram pela praça, vendo a gaiola vazia pensaram:
– Ouro Preto não tem jeito. É terra de vândalos, não respeitam nada.
Outros tiveram reação oposta, como a funcionária do Museu da Inconfidência que, ao abrir a janela, viu a gaiola vazia e suspirou aliviada pensando:
– Que bom que alguém roubou a cabeça do Tiradentes. Era assim que tinha de ser. 
O vereador amigo disse que ficou com inveja, ele gostaria de ter sido o autor do roubo da cabeça. Na rua, por onde passavam, os dois artistas eram cumprimentados. A cidade inteira sabia o que tinham feito através da rádio ou dos cochichos. A maioria havia aprovado. Era a resposta do povo ao autoritarismo de todos os tempos.

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Texto adaptado do livro “Tesouros, fantasmas e lendas de Ouro Preto”, de Angela Leite Xavier.
Obs.: Esta postagem foi realizada mediante prévia autorização da autora.

Para mais "causos" e contos de Angela Xavier, acesse o blog dela:
Compartilhando Histórias
http://www.angelaleitexavier.blogspot.com.br 

Livro : Tesouros, fantasmas e lendas de Ouro Preto

O livro reúne mais de 70 histórias, ambientadas do século XVIII até início do XX, coletadas junto a moradores ou em livros sobre a cidade. Olavo Romano, responsável pelo prefácio, afirma que "Ouro Preto era cheia de fantasmas, uma cidade mal iluminada, repleta de capelas e cemitérios, onde ninguém saia de casa depois das 21 horas. Trata-se de um livro que narra a História de Ouro Preto de uma forma agradável, à maneira dos contadores de histórias, e está entremeada de lendas e causos. Começa chamando a atenção do leitor para a necessidade de se preservar aquilo que faz parte da nossa memória e relata a descoberta do ouro, os conflitos que surgiram no início e as revoltas". 
A ênfase do livro é dada às histórias dentro da História, nas curiosidades que os livros de História não relatam, na sociedade que se formou ao redor das minas de ouro com suas crenças, seus valores e sua religiosidade. Relatos de grandes festas, de muitos casos assombrados e tesouros escondidos. A ilustração, com desenhos em bico de pena, é do artista plástico ouro-pretano José Efigênio Pinto Coelho.
Fonte: http://www.livrariaouropreto.com/lancamentos.html 

sábado, 26 de novembro de 2016

Cuba Libre

Morre Fidel Castro

Fidel Castro comemorando os resultados da revolução cubana

No dia 25 de novembro de 2016 (às 22h29 hora local; 01h29 de sábado em Brasília) morreu aos 90 anos de idade Fidel Alejandro Castro Ruz, informou seu irmão, o presidente Raúl Castro, em pronunciamento na rede de televisão estatal cubana.
O corpo do líder da Revolução Cubana (1956 a 1959) será cremado, "atendendo sua vontade expressa", explicou Raúl.
Desde que ficou doente, em julho de 2006, e cedeu o poder ao seu irmão Raúl Castro, o líder cubano se dedicou a escrever artigos, assim como livros sobre sua luta na Sierra Maestra e a receber personalidades internacionais em sua residência, no oeste de Havana.

Fidel Castro não morreu jovem com tiros no peito em frente a um paredão, jogado ao mar com as mãos amarradas nas costas, sem comida após prolongado período de prisão numa cela, ou de outra forma usual pela qual a ditadura que controlou por 57 anos eliminou opositores. Ele usufruiu de conforto e prestígio num socialismo que promoveu a igualdade social nivelando todos por baixo, enquanto aproveitava de comidas e luxos que o povo que governou se habituou a desconhecer.
Os benefícios que seu regime político ofereceu ao povo cubano em saúde e educação foram superados pelos prejuízos econômicos que levaram a estrurura produtiva do país se estabilizar num nível de sobrevivência, impossibilitando a melhoria e variação do bem-estar da população por décadas. 
Criticam Fidel por ser um socialista garoto-propaganda dos caros relógios Rolex e depois das roupas Adidas, mas a história deixa claro que ele não era um comunista convicto ao iniciar a revolução em Cuba. Pragmático, tornou-se um "comunista" para garantir o apoio militar e financeiro da União Soviética e evitar uma invasão pelos Estados Unidos. Nunca escondeu que apreciava os mimos para seu corpo e ego e que não via problemas num comunismo onde alguns são mais iguais do que outros.
Até aí não se diferencia dos hipócritas ditadores socialistas da União Soviética, China e Coréia do Norte. Sua singularidade está no fato de que sua receita de "revolucionário protetor" inspirou rascunhos mal acabados como Hugo Chaves (na Venezuela) e Evo Morales (na Bolívia), que só foram eficientes em imitá-lo nos seus países no acabar com a riqueza ao invés da pobreza. Foi elevado à condição de "ditador camarada" na alienada idolatria de uma legião de estrangeiros cegos voluntariamente, que negam ou justificam suas crueldades, e se recusam a enxergar o fato de que uma ditadura é sempre uma repressão das possibilidades de expressão e locomoção das pessoas, aliada a uma obrigatoriedade de ações, seja ela de direita ou esquerda.

Fato é que se o comunismo praticado atualmente fosse bom, as populações destes países não precisariam ser impedidas de tentar fugir deles. As pessoas querem fugir de países comunistas e não para países comunistas, e só este fato já diz muita coisa.
Para os revolucionários de boteco e intelectuais de butique de plantão deixo claro que não tenho nada contra a teoria do comunismo. Se for criada uma sociedade realmente mais igualitária e menos gananciosa, onde as pessoas tenham mais valor e amparo do Estado, eu de bom grado me mudo para lá e abro mão de algumas individualidades em prol da coletividade. O que me incomoda é a demagogia dos supostos "comunistas" que invariavelmente oferecem alguns benefícios iniciais ao povo e depois reservam para si e para os seus uma série de privilégios, seguido de manipulação das informações e uma catequese de doutrinação ideológica até que o empobrecimento generalizado seja tolerado por meio de um aparato de repressão armada e incitação ao medo ou ódio.
O mais próximo de um comunismo sincero que percebo é na Índia que, apesar de ter gritantes desníveis entre uma pequena elite rica e uma enorme população miserável, na pobreza onde a maioria vive se é livre para ir e vir e se expressar como desejar, havendo uma adaptação voluntária  de comum acordo num pacto por tradição  onde muitos vivem numa nivelada forma precária, mas não havendo movimentação para revoluções visando mudanças sociais ou políticas. Portanto, se as coisas para a maioria dos indianos não estão boas, também não estão tão ruins a ponto de fazerem um esforço social para mudanças drásticas. A mim parece ser uma sociedade que vive num tipo de comunismo por acomodação, com o mérito de não haver forças policiais ou militares vigiando ou aprisionando as pessoas por motivos ideológicos. A Índia é um enigma que merece ser estudado, pois dali se pode tirar interessantes lições!

Comunismo de luxo - O tempo das elites é mais valioso
( Da esquerda para direita: Fidel Castro, Che Guevara e Hugo Chaves )

Não importa se quem paga o salário dos policiais, militares e serviços de espionagem é um governo de direita ou esquerda. Só há dois tipos de governantes: os que governam para si (e os seus) e os que governam para os outros!
Independentemente da orientação política, o governo que negligencia o povo – enquanto o engana com discursos nacionalistas ou populistas – acaba levando-o ao empobrecimento e, quando os prejudicados reclamam, são reprimidos pelo governo que visa apenas seus próprios interesses.
Direita ou esquerda, mudam os discursos, mas o objetivo de governantes descompromissados com a nação é sempre o mesmo: garantir prestigio e conforto para a pequena elite instituída, oprimindo e/ou enganando a maioria da população.
É necessário amadurecer a percepção e opinião para sair de antiquados e estereotipados (pre)conceitos políticos e sociais, focando e orientando-se pelos resultados sociais ao invés das fúteis ou fanáticas paixões partidárias ou ideológicas.
Eu particularmente prefiro a evolução do que a revolução!

Morreu Fidel Castro. Morre um dinossauro da retórica hipócrita do comunismo de fachada. Outros virão...

Comunismo de grife - Fidel na ostentação indumentária
Abaixo os porcos capitalistas que ficam espalhando boatos que a Adidas patrocina o comunismo cubano!
Fidel também usava roupas da Nike, Puma e Fila, driblando o embargo econômico na promoção da igualdade social.

Fontes de referência:

Cubanos em Miami celebram morte de Fidel
http://g1.globo.com/mundo/noticia/cubanos-em-miami-celebram-morte-de-fidel.ghtml

Morre Fidel Castro. Havendo um inferno, está indo pra lá
http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/morre-fidel-castro-havendo-um-inferno-esta-indo-pra-la 

Revolução Cubana
https://pt.wikipedia.org/wiki/Revolu%C3%A7%C3%A3o_Cubana  

Vídeos:

Anúncio da morte de Fidel Castro foi feito pelo irmão, Raúl
http://g1.globo.com/mundo/2016/11/anuncio-da-morte-de-fidel-castro-foi-feito-pelo-irmao-raul 
(0:35)

Fidel Castro, ex-presidente de Cuba, morre aos 90 anos em Havana
http://g1.globo.com/jornal-nacional/fidel-castro-ex-presidente-de-cuba-morre-aos-90-anos-em-havana  
(3:03)

Cubanos exilados em Miami comemoram morte de Fidel Castro
http://g1.globo.com/cubanos-exilados-em-miami-comemoram-morte-de-fidel-castro 
(5:00)

Trajetória de Fidel Castro marcou a segunda metade do século 20
http://g1.globo.com/trajetoria-de-fidel-castro-marcou-a-segunda-metade-do-seculo-20 
(12:23)

Trajetória do líder cubano Fidel Castro
http://g1.globo.com/fantastico/trajetoria-do-lider-cubano-fidel-castro 
(7:51)

sábado, 5 de novembro de 2016

Um ano depois

A difícil e lenta recuperação na lama da Samarco

Casa em ruínas após rompimento de barragem em Mariana
Foto: Márcia Foletto (Agência O Globo)

Há um ano, em 05 de novembro de 2015, aconteceu o rompimento da Barragem do Fundão, da mineradora Samarco, no distrito de Mariana, em Minas Gerais, quando vazaram aproximadamente 40 milhões de metros cúbicos de rejeito de minério, deixando um rastro de destruição. Foram 19 mortos, 250 feridos e milhares de animais mortos, além de prejuízos com a diminuição da produção de alimentos, arrecadação de impostos e turismo. Em algumas localidades a vida social parou e retoma o ritmo de forma lenta.

Desde então a mineradora tem prestado auxílio material e financeiro para muitos dos atingidos, mas também é acusada de esconder seu patrimônio para diminuir o ritmo da ajuda oferecida, além de negar documentos que comprovem o conhecimento sobre falhas na segurança de suas atividades e dos riscos envolvidos. 
Segundo reportagem do Profissão Repórter, de 26 de outubro de 2016, um ano depois 90% da lama que vazou da barragem continua espalhada pelo caminho. Desde o dia do rompimento, continua o vazamento de lama e contaminação de cursos d’água. Há previsão de que mais rejeitos de lama e produtos tóxicos serão levados pelas chuvas do início de 2017 para ribeirões e rios de regiões próximas, tornando-os novamente impróprios para pesca e abastecimento de água. A Bacia do Rio Doce, com seus afluentes e moradores, enfrenta uma silenciosa luta pela sobrevivência. 
 Nos distritos de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo ocorreram as maiores destruições, mas muitas fazendas e pequenas propriedades rurais também foram devastadas ou muito danificadas pela inundação de lama. Outros distritos e cidades tiveram prejuízos, que em alguns casos, permanecem até os dias atuais. Comunidades indígenas e de pescadores sentem ainda agora as dificuldades pela ausência de pesca e abastecimento de água potável.
Até março de 2019, a Samarco se comprometeu a construir novas povoações nos locais mais danificados e fazer as reformas necessárias nos locais menos atingidos. Óbvio que a empresa gostaria de ter evitado o rompimento, com todos os prejuízos (humanos, materiais e de mercado) e que tem gasto muitos recursos – entre aluguéis, salários mínimos e cesta básicas – para minimizar os estragos, mas a distribuição entre os atendidos é muito de reclamações e é enorme o desafio de compensar a parada na produção e a perda de equipamentos para os que desejam retomar sua independência financeira.

Os atingidos em Minas Gerais e no Espírito Santo deixaram para trás o luto, mas continuam em luta. De tudo o que aconteceu e ainda acontece, o maior ensinamento que podemos ter é a necessidade da consciência e responsabilidade na exploração da natureza, pois é rápido e fácil destruí-la, mas demorado e custoso recuperá-la.

Vidas na lama após o rompimento da barragem
Foto: Pedro Vilela (Agencia i7)

O rompimento da barragem de Fundão completa um ano. A Samarco se comprometeu a reconstruir os municípios atingidos pela lama em terrenos vizinhos até março de 2019. Atualmente, a maioria dos desabrigados continua em Mariana, em casas alugadas pela empresa. Depois da suspensão das atividades da Samarco, o município deixou de arrecadar quase 40% do total de impostos.
Dos mil moradores desalojados dos dois distritos mais atingidos pelo rompimento da barragem da Samarco, 300 são crianças. Grande parte delas mora hoje em Mariana. Os moradores dos distritos atingidos pelo rompimento da barragem tentam se adaptar ao novo estilo de vida na cidade, muito diferente do que tinham no campo. O processo é difícil e 150 pessoas fazem tratamento psicológico e psiquiátrico nos postos de saúde de Mariana.
Os moradores desalojados costumam visitar o que sobrou das casas e preferem que o cenário da tragédia permaneça intocado, mas uma obra polêmica planejada pela Samarco vai alagar parte de Bento Rodrigues. A empresa diz que a construção de um novo dique, o S4, é única forma de impedir que os rejeitos que estão na área de Bento Rodrigues contaminem os rios da região, mas documentos contestam a eficiência do dique em conter os rejeitos de minério. Segundo o Ministério Público, a Samarco já planejava construir a barragem de Mirandinha perto de Bento Rodrigues para aumentar a produção de minério.
A Secretaria do Meio Ambiente de Minas Gerais respondeu que o dique S4 contribui para a contenção de rejeitos depositados na região de Bento Rodrigues e que o laudo realizado por seus próprios técnicos não é conclusivo. A Samarco afirma que o Projeto Mirandinha foi suspenso e que a construção do dique S4 não tem relação com a criação da barragem.
Fonte:
http://globo.com/profissao-reporter/ministerio-publico-contesta-eficiencia-de-nova-obra-proposta-pela-samarco 

Tijolos artesanais com a lama da Samarco para reconstrução do que foi destruído.

O projeto "Tijolos de Mariana" pretendia fabricar tijolos artesanais a partir da lama retirada das regiões atingidas pelo rompimento da barragem. O objetivo da campanha, criada no site Kickante, é arrecadar R$ 400 mil para montar uma fábrica e produzir tijolos em escala industrial. A iniciativa utiliza tecnologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pretende criar 80 empregos diretos e indiretos para a comunidade.
Se implementado o projeto, em um ano quase 1 milhão de quilos de lama seriam retirados da natureza e purificados. Esses tijolos seriam usados para reerguer casas, escolas, hospitais, centros comunitários e ajudar a economia local voltar a funcionar. As doações para implementação do projeto começavam com R$ 10, mas devido à baixa adesão o projeto foi paralisado.

Veja mais detalhes sobre esta iniciativa em:
• Projeto Tijolos de Mariana
• Kickante

Lama em Paracatu de Baixo (09 Nov 2015)
Foto: Moacyr Lopes Júnior (Agência FolhaPress)

Prejuízos causados pela lama da Barragem do Fundão (15 Nov 2015)
Foto: Márcio Fernandes (Agência Estadão)

Matérias especiais sobre um ano do rompimento da barragem: 

Vídeos:

Bom Dia Brasil
Tragédia de Mariana faz um ano e punições não avançam
(07:54)

Jornal da Globo
Rompimento da barragem da Samarco completa um ano com muitos problemas para resolver
(03:40)

Jornal Nacional
Ministério Público Federal denuncia 22 pessoas e quatro empresas por desastre em Mariana
(02:45)

Profissão Repórter
Um ano depois da tragédia de Mariana
(35:46)

Domingo Espetacular
Veja como está Mariana um ano após o desastre que devastou a cidade
(35:28)

Fantástico 
Um ano após tragédia em Mariana, histórias revelam revolta e esperança
(14:47)

Fantástico 
Fantástico percorre o Rio Doce para analisar qualidade da água
(07:42)

Funcionários da Samarco mostram a força da enxurrada de lama em 2015
(06:21)

Lama da barragem da Samarco chega em Camargos (MG) 
(01:56)

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Se quiser ver a publicação que fiz em 2015 sobre o rompimento da barragem, acesse:
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