sábado, 12 de agosto de 2017

Fase histórica

Para facilitar a dominação investe-se em alienação ! 

( Homenagem in memoriam aos historiadores no Novo Ensino Médio )

Face Histórica

sábado, 5 de agosto de 2017

Caça ao tesouro


Mapa : Revista O Cruzeiro, de 10 de janeiro de 1953
Pág. 282 do livro Tesouros, fantasmas e lendas de Ouro Preto

O tesouro de Cláudio Manuel
Autora: Angela Xavier

Muitos são os buscadores de tesouros em Ouro Preto. Alguns gastaram anos de sua vida em busca de pistas, mapas e sinais que, muitas vezes, não levaram a nada. Mas o ser humano tem uma força dentro de si que o faz se empenhar, embrenhar nas matas, entrar em grutas escuras e desconhecidas, acreditar no improvável, apoiando-se num sonho.
Existe um tesouro ainda escondido: o tesouro de Cláudio Manuel. Talvez um tesouro patriota, guardado para a construção do país, para quando o Brasil se separasse de Portugal.
Muitos foram aqueles que buscaram por ele: o famoso tesouro dos inconfidentes! Seriam muitas arrobas de ouro escondidas num local de difícil acesso, próximo ao Pico do Itacolomi. O local estava indicado em documento, acompanhado de um mapa, com as indicações do local. Teria muitas pedras empilhadas e era preciso muito cuidado, porque elas teriam sido juntadas com certa massa alemã que explodiria dependendo do atrito. O local ficaria perto de uma cachoeira, na junção do Córrego do Baú com o Córrego do Itacolomi. Ali existiria uma grande pedra onde estariam gravadas as letras “CM”, de Cláudio Manuel.
Alguns caçadores de tesouros chegaram a localizar uma mina e entraram dentro até um grande salão. Chegaram a desmanchar muros de pedra dentro da mina e a tal massa alemã não explodiu. Era uma mentira para desencorajar os menos ousados! Aquilo era barro usado na junção das pedras.
O grupo percorreu o que foi possível dentro daquela mina e desmontou muitos muros em busca de vestígios. Havia degraus de pedra por dentro, feitos por escravos. Depois de descer uns dez metros mais ou menos, eles chegaram a um salão. O grupo trabalhou ali por mais de três anos e não achou nada. Dizem que as galerias desta mina chegam até o distrito de Itatiaia.
Um dos membros do grupo morreu dentro da mina, durante a busca do tesouro. Oficialmente a causa da morte foi por um problema cardíaco, agravado por dificuldades respiratórias. O povo comenta que ele foi morto pelo espírito do ouro que tanto buscou.
Nas décadas de 1940 e 1950, havia muitos caçadores de tesouro, percorrendo os arredores de Ouro Preto, na esperança de encontrar o tal Tesouro dos Inconfidentes.
Fato realmente extraordinário aconteceu com os cidadãos ouro-pretanos Inácio Pinheiro e Gilberto de Carvalho, no ano de 1939. O Instituto Butantã comprava cobras, aranhas e escorpiões para fazer vacinas e o então jovem Gilberto de Carvalho saiu procurando tais bichos nas horas de folga para ganhar um dinheiro extra. Revirando o porão de sua casa, onde fora a antiga Casa de Fundição de Ouro Preto, hoje Colé Presentes, ele encontrou uma caixa de madeira e dentro dela alguns documentos muito antigos, preservados em carvão. O documento era de 1788 e assinado por Domingos Affonso Bastos, que transcrevo na íntegra:

Bocaina do Triphuy

Aos 12 dias do mês de dezembro do ano do nascimento do Nosso Senhor Jesus Cristo de 1788.
Senhor Doutor Cláudio Manoel da Costa, por esta carta só tenho que fazer uma confissão sobre a vinda do senhor Domingos aqui. Passei algumas aflições para cumprir as tuas ordens, mas na mesma noite eu e o senhor Domingos matamos os sete escravos e o capataz, de acordo com seus mandados, e por minha conta matei a mulher do capataz. Isto fiz para nosso tamanho sacrifício não ser descoberto. Depois que me coube esta missão de derramar tanto sangue não deixei nenhuma testemunha a não ser a terra porque esta não tem boca para falar.
A mina, fechei o portão com a chave, dei algumas cargas para fazer o arreamento. Conforme o senhor queria não pôde ser devido as cargas mais fundas negarem. Só arriou uns 20 passos... A chave da mina deixei atrás do arco da ponte dentro de uma pedra lavrada, isto é, na entrada da ponte vindo da Vila para cá e o ouro que a mina produziu neste dois meses foram 405 barras com o peso de 3 libras e meia cada uma e para fundir mais 214 arrobas. Não tive tempo de embarrar tudo devido a sua carta e a minha moléstia que tem agravado mais. Tenho posto muito sangue estes dias. Pobre de um homem hético que deseja trabalhar e não pode e creio que não espero estes dias de nossa tranquilidade e como estou muito desconfiado com meu estado.
Declaro aqui que encontrei uma mina velha e esta aproveitei para esconder este ouro já apurado, 405 libras que estavam aqui. Esta mina só tem uns 60 passos de fundura e nela fiz um arreamento de 20 passos que é bastante, para o caso de perigo não ser descoberto este ouro apurado e como o senhor não sabe onde fica esta mina... a partir da ponte pelo rio acima do lado esquerdo fica este em frente do fojo que o senhor pegou os quatis, distante do fojo 16 passos da mina nova fica distante 380 passos, isto é, para o saber tudo.
Com esta carta também vai este desenho para melhor o senhor compreender caso o senhor queira tirar este ouro com pouco trabalho; no fundo da mina velha tem um suspiro e neste pus uma cruz de braúna conforme este desenho.
Domingos Affonso Bastos”

Imediatamente Gilberto entrou em contato com Inácio Pinheiro e os dois saíram atrás das indicações daquele tesouro. Seguiam o roteiro indicado no documento e chegaram à pedra lavrada no arco da ponte de Bocaina do Tripuí. Emocionados, tiraram a pedra e, dentro do local, encontraram uma chave de ouro maciço. Prosseguindo nas buscas, encontraram os nove esqueletos dos sete escravos, do capataz e sua mulher, mortos na ocasião do ocultamento do tesouro. Tudo ocorria de acordo com as indicações. Eles estavam muito animados e contrataram homens para ajudar.
A chave deu 64 gramas de ouro que eles venderam por um conto e quinhentos. Precisavam de dinheiro para prosseguir com as buscas. Gilberto de Carvalho comprou o terreno onde estaria a mina e passou a buscá-la incessantemente. Apostou tudo que tinha nesse sonho, mas não conseguiu encontrar a mina. Nas palavras do próprio Gilberto:
– De minha parte gastei 40 contos nas pesquisas. A mina deveria estar ali por perto. Mas esta é uma região em que os efeitos da erosão são quase inacreditáveis. É muito comum uma bananeira “viajar” muitos metros dentro desses quintais de Ouro Preto.
Esse foi o motivo alegado para o fato da mina não ter sido encontrada depois de anos de buscas.
Aos dois pesquisadores, juntou-se José da Costa Carvalho Filho, e os três foram ao Rio de Janeiro pedir financiamento. Precisavam de capital para continuarem as buscas do grande tesouro que seria dividido entre eles e o Governo Federal.
Getúlio Vargas era muito sentimental em relação a Ouro Preto por haver estudado na cidade em sua juventude. Ordenou o empréstimo de 300 contos de réis para a empreitada. Os pesquisadores do tesouro passaram meses no Rio de Janeiro às voltas com o Ministério da Fazenda, o Banco do Brasil e o Código Civil. Tamanha burocracia jogou por terra as pretensões dos três sonhadores e, com pouco dinheiro, voltaram decepcionados para Ouro Preto.
Esses homens passaram o resto de suas vidas atrás deste sonho: encontrar o tesouro do inconfidente Cláudio Manuel da Costa. Gastaram dinheiro, energia e tempo na empreitada. Não foram vitoriosos, mas viveram uma grande aventura.
– Posso dizer que conheço Ouro Preto por cima e por baixo da terra. Está tudo esburacado. Mais de uma vez penetrei nesse labirinto num dia, para sair exausto no dia seguinte. É uma coisa louca o entrelaçado das antigas minas abandonadas. Podem me chamar de doido, mas acredito na existência desses tesouros. Disse Inácio Pinheiro.

Obs: Documento original, mapa e reportagem da revista O Cruzeiro, de 10 de janeiro de 1953, fornecidos pela família de Gilberto de Carvalho.

◄ ♦ ►

Texto adaptado do livro “Tesouros, fantasmas e lendas de Ouro Preto”, de Angela Leite Xavier.
Págs. 279 a 284.
Edição do Autor; Ouro Preto (MG); 2009 (2ª edição).

Obs.: Esta postagem foi realizada mediante prévia autorização da autora.

Para mais "causos" e contos de Angela Xavier, acesse o blog dela:
Compartilhando Histórias
http://www.angelaleitexavier.blogspot.com.br 

Livro : Tesouros, fantasmas e lendas de Ouro Preto

O livro reúne mais de 70 histórias, ambientadas do século XVIII até início do XX, coletadas junto a moradores ou em livros sobre a cidade. Olavo Romano, responsável pelo prefácio, afirma que "Ouro Preto era cheia de fantasmas, uma cidade mal iluminada, repleta de capelas e cemitérios, onde ninguém saia de casa depois das 21 horas. Trata-se de um livro que narra a História de Ouro Preto de uma forma agradável, à maneira dos contadores de histórias, e está entremeada de lendas e causos. Começa chamando a atenção do leitor para a necessidade de se preservar aquilo que faz parte da nossa memória e relata a descoberta do ouro, os conflitos que surgiram no início e as revoltas". 
A ênfase do livro é dada às histórias dentro da História, nas curiosidades que os livros de História não relatam, na sociedade que se formou ao redor das minas de ouro com suas crenças, seus valores e sua religiosidade. Relatos de grandes festas, de muitos casos assombrados e tesouros escondidos. A ilustração, com desenhos em bico de pena, é do artista plástico ouro-pretano José Efigênio Pinto Coelho.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

(Fora) Do ar

Por 3 meses
este blogueiro estará temporariamente desligado
ou fora da área de serviço,
em hibernação & elaboração
do processo de criação!

Té +


Imagem: cliparts.com 

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Cavaleiros da Inconfidência

Celebrações do dia 21 de abril

Cavalgada da Inconfidência
A Ordem dos Cavaleiros da Inconfidência Mineira

A Ordem dos Cavaleiros da Inconfidência Mineira é uma instituição cívica, filantrópica e cultural que tem como objetivo social a divulgação da Inconfidência Mineira. Tem na sua essência uma das mais importantes premiações, ao reconhecimento de pessoas físicas e jurídicas que prestam comprovados serviços à história, a cultura e a sociedade.
É seguidora dos princípios tradicionais da Ordem dos Cavaleiros Hospitalares de Vila Rica, criada na antiga capital de Minas Gerais, possivelmente pelo inconfidente Tomás Antônio Gonzaga, por volta de 1779, atuando naquela cidade na época da colônia e que, paralelamente as atividades assistenciais praticadas, foi o berço do movimento que mais tarde seria conhecido como Inconfidência Mineira.

A OCIM tem como patrimônio sua sede em Belo Horizonte e o Sítio da Varginha (em Conselheiro Lafaiete) – tombado pelo Patrimônio Histórico de Minas Gerais – local onde está sendo implantado o projeto do Centro Cultural “Estalagem dos Inconfidentes” registrado no cartório de Registro Civil das Pessoas Jurídicas, em 1996, mantendo sua prestação de conta com os órgãos competentes e seus associados ativos.

A OCIM organiza, apóia e premia iniciativas culturais. Em ações filantrópicas, arrecada e distribui roupas, remédios, cestas básicas, apoio residencial, apoiando deficientes e operações emergenciais. Está entre as Ordens Cavalheirescas e Humanitárias mais antigas no Brasil, tendo caráter liberal e independente de controle de quaisquer autarquias ou organizações religiosas ou filosóficas.

Fonte:
Site da Ordem dos Cavaleiros da Inconfidência Mineira (OCIM)

Cavaleiros da Inconfidência e o Fogo Simbólico da Liberdade
Tiradentes - MG (2010)

Passagem do Fogo Simbólico da Liberdade
Praça Tiradentes - Ouro Preto (21 de abril de 2010)

O trajeto dos cavaleiros varia de acordo com os organizadores do ano, começando sempre no dia 21 de março, em variadas cidades, e terminando no dia 20 de abril em Ouro Preto. Em 2013, por exemplo, começou a partir de São Lourenço, passando por Baependi, Andrelândia, São Vicente, Carrancas, Madre de Deus, São João del-Rei, Tiradentes, Prados, Carandaí, Cristiano Otoni, Queluzito, Conselheiro Lafaiete, Ouro Branco e, por fim, Ouro Preto, com chegada dia 20 de abril e celebração da Inconfidência Mineira dia 21, quando a pira do “Fogo Simbólico” foi entregue ao Governador do Estado de Minas Gerais. Em outros anos, a cavalgada iniciou nas cidades de Carrancas, São João del-Rei ou Tiradentes.
São feitas paradas nas cidades pelo caminho para celebrações e homenagens cívicas de autoridades e escolas locais, exaltando os ideais de dedicação e sacrifício pela liberdade. Com o tempo, a celebração que era mais simples e afetiva tornou-se mais diversificada e politizada, aumentando a participação de diversas instituições civis e militares.

Em minha opinião, a cavalgada dos Cavaleiros da Inconfidência deveria começar sempre na cidade de Tiradentes e seguir pela Estrada Real para Ouro Preto, sem variação do trajeto. Penso também que a crescente variedade de medalhas e comendas distribuídas pela Ordem dos Cavaleiros da Inconfidência Mineira é um equivocado instrumento de politização de algo que deveria ser uma irmanação de pessoas na comunhão por uma mesma causa. Uma única medalha deveria ser entregue para todos que trabalhassem pelos ideais de independência e liberdade, propagados pela Conjuração Mineira. Assim, prefeitos, oficiais da polícia militar, artesãos, comerciantes e poetas, entre outros, teriam todos uma mesma medalha para igualá-nos na condição de "mineiros".
As condecorações são entregues para pessoas físicas e jurídicas que prestaram relevantes serviços para a história, cultura e sociedade de Minas Gerais, ajudando na propagação dos ideais de liberdade e igualdade.

Medalhas e comendas da Ordem dos Cavaleiros da Inconfidência Mineira (OCIM)

Certificado de Fiel Cavaleiro da Paz
Ordem dos Cavaleiros da Inconfidência Mineira ( OCIM )

Diploma e Colar do Mérito Cívico Joaquim José da Silva Xavier “Alferes Tiradentes”
Ordem dos Cavaleiros da Inconfidência Mineira ( OCIM )

Cavaleiros da Inconfidência (Conselheiro Lafaiete - MG)
em direção ao Sítio da Varginha para celebração cívica
Foto (18 Abr 2013) : Sylvio Bazote

Estalagem dos Inconfidentes (Sítio Arqueológico da Varginha)
Conselheiro Lafaiete (MG) - Km 2 da MG-129 (Estrada Real)
( Doação: Gerdau Açominas S.A.  )
Área sob responsabilidade da Ordem dos Cavaleiros da Inconfidência Mineira
com a árvore gameleira onde ficou pregada, em 1792, a perna direita de Tiradentes.
Foto (04 Ago 2015) : Sylvio Bazote

Monumento aos Inconfidentes de Queluz
Conselheiro Lafaiete (MG) - Km 636 da BR-040
( Região do Posto Trevão - 17 Abr 2013 )
Foto: Sylvio Bazote

Monumento aos Inconfidentes de Queluz
Conselheiro Lafaiete (MG) - Km 636 da BR-040
( Região do Posto Trevão - 17 Abr 2013 )
Foto: Sylvio Bazote

Parte do Monumento aos Inconfidentes de Queluz
Conselheiro Lafaiete (MG) - Km 636 da BR-040
( Ordem dos Cavaleiros da Inconfidência Mineira - OCIM )
Foto: Sylvio Bazote

Detalhe do Monumento aos Inconfidentes de Queluz
Conselheiro Lafaiete (MG) - Km 636 da BR-040
( Ordem dos Cavaleiros da Inconfidência Mineira - OCIM )
Foto: Sylvio Bazote


Videos :

Cavaleiros da Inconfidência Mineira (2011)
(2:34)

VIII Cavalgada da Inconfidência (2012)
(2:49)

IX Cavalgada da Inconfidência Mineira – OCIM (2013)
(23:23)

Fogo Simbólico  X Cavalgada da Inconfidência Mineira (2014)
(3:09)


Cavaleiros da Inconfidência em Andrelândia (MG)
(10 de abril de 2013)

Entrega do Fogo Simbólico da Liberdade em solenidade do dia 21 de abril de 2013
Praça Tiradentes - Ouro Preto (MG)
Imagem: http://pt.slideshare.net/MuriloAlvarenga/ordem-dos-cavaleiros-da-inconfidncia-mineira 


A chama da liberdade em Minas Gerais
Praça Tiradentes - Ouro Preto (21 de abril de 2014)
Foto: Tino Ansaloni ( Jornal Voz Ativa)
Imagem: http://www.jornalvozativa.com/medalha-da-inconfidencia-em-ouro-preto-no-dia-21-de-abril 


Para saber mais sobre a Inconfidência Mineira, acesse:

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Folia das Almas

Foliões das almas na Semana Santa

Folia das Almas na Semana Santa

Não se sabe ao certo de onde surgiu o ritual de "Recomendação das Almas", como era chamado, mas se sabe que ele era praticado em Portugal desde a Idade Média. Isso porque o catolicismo medieval acreditava que o destino comum de todas as almas era o Purgatório, de onde partiriam depois para o Paraíso ou para o Inferno conforme suas ações e méritos. Daí a tradição de rezar e cantar às almas como forma de pedir a salvação de parentes e amigos falecidos, além de desconhecidos por caridade.
A Folia das Almas (também conhecida como Encomendação das Almas) é uma tradição popular portuguesa, trazida ao Brasil pelos jesuítas no século XVI, e encenada durante a Semana Santa. Os participantes desta crença rezam pelas almas penadas do purgatório durante os dias da Semana Santa, visitando capelas e casas com os cânticos da "Encomendação das Almas", encerrando a reza na Sexta-Feira da Paixão, pedindo a Deus que abençoe e libere almas do purgatório para subir aos céus.
Com o objetivo de evangelização, esse ritual era bastante comum em regiões do interior do Brasil. A partir da segunda metade do século XX, foi perdendo a força devido ao êxodo rural provocado pela industrialização e consequente poder de atração das cidades, e atualmente se mantém em poucos locais.

A tradição da Folia das Almas, no Vale da Gurita – região rural do município de Delfinópolis (MG) – é mantida há mais de 40 anos por um grupo folclórico local (*). O ritual é realizado pelos moradores das comunidades do Itajuí e Itaniope, situadas no vale. O grupo promove visitas às casas do entorno da Serra da Canastra para realizar a "Cantoria pras Almas", passando pelos vilarejos de São João Batista e Serrinha, ambos na área rural de São Roque de Minas. O evento tem o apoio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que administra a unidade de conservação situada na Serra da Canastra.

Desde 2012, a Folia das Almas inclui em sua programação uma caminhada ecológica, de aproximadamente 3 Km, que leva ao Cemitério do Tatu. A ideia foi sugerida pela chefia do Parque Nacional da Serra da Canastra e incorporada pelos organizadores do evento. Para quem gosta de cultura popular e recreação em ambientes naturais, visitar o parque na semana santa se tornou um prazer em dose dupla.
Esta peregrinação é uma homenagem a um triste episódio da história do Vale da Gurita. Segundo a tradição, uma epidemia de gripe espanhola dizimou, no início do século XX, grande parte da população local. Sem ter onde enterrar tanta gente, os moradores improvisaram um cemitério no pé da serra. Ao longo dos anos, sempre à noite, tatus-canastras apareciam e desenterravam os cadáveres. Daí o nome do lugar.

O ponto alto da Folia das Almas é entre a Sexta-Feira Santa e o Sábado de Aleluia. Na manhã de sexta, o grupo sai de Delfinópolis até as margens do Rio Babilônia, no entorno do Parque Nacional da Serra da Canastra. Dali começam a caminhada (Caminhada Ecológica da Folia das Almas) até o Cemitério do Tatu, situado fora do parque.
Às 15 horas – horário em que Jesus faleceu – são realizadas orações e cantos junto ao Cruzeiro das Almas, no interior do cemitério, depositando no mesmo, água do Rio Babilônia e flores, representando o pedido do grupo à Nossa Senhora das Graças pela libertação das almas do purgatório (ou "almas penadas").
Após a visita ao cemitério, os devotos seguem para a Capela de Nossa Senhora das Graças, padroeira do Vale do Itajuí, onde, entre rezas e conversas, aguardam a noite para iniciar a peregrinação pelas casas da região, fazendo a Encomendação das Almas.
Chegando em cada casa, anunciados pelos sons de matraca, apito, chocalho, réu-réu, cigarra e berra-boi (**), os devotos realizam a Cantoria das Almas, convidando os moradores a rezarem. Quando o ritual começa, os donos das casas devem apagar as luzes e rezar. Após a reza, os moradores acendem as luzes e recebem os peregrinos com comidas e breves conversas, após as quais, o cortejo segue para outra residência, recomeçando o ritual.
A cantoria termina na residência de uma pessoa, eleita para ser o "festeiro" daquele ano. Esta casa é enfeitada com imagens de santos e para ela são convidados outros moradores da região. Nela é rezado o terço (Terço da Libertação das Almas) pouco antes da meia-noite da Sexta-Feira da Paixão, depois do qual, no início da madrugada do Sábado de Aleluia, é realizada a caça ao tesouro de Judas (***).
A "Caça ao tesouro de Judas Iscariotes" é realizada por crianças e adolescentes da comunidade, consistindo na procura de um boneco espantalho escondido, que traz consigo o "tesouro das almas". Ao encontrar o tesouro, os jovens (fantasiados e mascarados, representando as almas penadas) distribuem entre os convidados os presentes que estavam junto ao boneco e o conduzem até uma fogueira para ser queimado.
Ouve-se, então, uma gravação com a voz de Judas, em que ele compartilha seu sofrimento, demonstrando compaixão pelas almas e seu desapego às coisas terrenas. Assim, oferece seu sacrifício pela salvação das almas que foram perdoadas e agora seguem para o Céu.
Após a queima do Judas, o festeiro oferece um jantar aos peregrinos e moradores, encerrando a celebração da Folia das Almas naquele ano.

Ë

(*) Para não deixar morrer a tradição

O grupo da comunidade do Itajuí realiza as cerimônias há mais de 40 anos sem interrupções. A tradição da Folia das Almas, porém, precisou se adaptar aos novos tempos para continuar a existir. Os cantos e rezas, que aconteciam em todas as sextas-feiras da Quaresma, hoje ocorrem somente na quarta, na quinta e na sexta da Semana Santa.
Com base no levantamento realizado pelo Conselho Municipal do Patrimônio Cultural de Delfinópolis, a Folia das Almas de Itajuí é uma manifestação folclórico-religiosa de grande importância, tanto para a história da Igreja Católica no Brasil quanto para o fortalecimento da identidade sócio-cultural das comunidades. Por isso, a entidade trabalha para preservar a celebração.
A prefeitura de Delfinópolis disponibiliza veículos do transporte escolar para que o grupo de foliões das almas possa fazer seus deslocamentos durante a Semana Santa, possibilitando mais segurança e conforto ao cortejo que antigamente era feito a cavalo.
Os foliões também trabalham para chamar mais gente para compor o cortejo durante o feriado santo. É comum a folia começar com 20 ou 30 pessoas na área urbana e que, no último dia, já atraia mais de 50. O grupo é aberto a todos que queiram participar e conta com pessoas de todas as idades.

Ë

(**) Os instrumentos musicais da Folia das Almas

Os devotos realizam sua peregrinação levando consigo diversos instrumentos musicais. A matraca é a protagonista. Produz um som parecido ao canto de uma gralha – o barulhento pássaro parente dos corvos – cada vez que o ferro encosta a madeira. Ela é tocada repetidas vezes e anuncia a chegada do cortejo.
O apito é levado pelo capitão da folia. O chocalho também está presente e é para lembrar o barulho das pedras que eram jogadas nas casas das pessoas para avisar a chegada do cortejo. O réu-réu, feito de bambu, gera uma sequência rápida de batidas quando o tocador gira a roda dentada, que levanta e solta rapidamente uma lasca do instrumento. A cigarra imita o barulho desse inseto, tão comum no campo. O berra-boi, feito a partir de um cordão que se prende em uma tábua de um lado e por um cabo do outro, produz um som forte que imita o barulho de uma ventania.

Ë

(***) O tesouro de Judas

Jesus foi traído e entregue aos romanos por Judas, recebendo este 30 moedas de prata. Arrependido de seu ato, posteriormente Judas entrega as moedas aos sacerdotes e depois se mata.
As crianças, fantasiadas e mascaradas, representam as almas penadas, e saem à procura do tesouro de Judas – recheado com balas, bombons, pequenos brinquedos e outras regalias – como forma de castigar Judas por sua ambição, furtando seus bens materiais antes de sua morte.

Foliões das Almas em cortejo para o Cemitério do Tatu
Serra da Canastra (MG)

Folia nas Almas na Capela de Nossa Senhora das Graças
Vale do Itajuí (MG)

"Cantoria pras Almas" 
Cortejo noturno da Folia das Almas

Vídeos:

Folia das Almas - Delfinópolis (MG)
https://www.youtube.com/watch?v=zBO-FZ8OwKI 
(12:12)
Reportagem mostra a dinâmica da devoção da Folia das Almas em Delfinópolis (MG): preparativos, motivações e depoimentos.

Folia das Almas tem canto e reza para os mortos na Serra da Canastra
(14:00)
O repórter Nélson Roberto Araújo apresenta uma bela matéria – em prosa e verso – exibida pelo Globo Rural, em 02 de novembro de 2014.
“O canto das almas é um canto de finados. (...) Nós brasileiros estamos perdendo muito este lado da cultura das peças e, sobretudo, das celebrações. Na cidade não se tem mais este fator de convivência que congrega. (...) O campo agrega!”
Antônio Grilo – Historiador

"Encomendação das Almas" 
Cemitério do Tatu

Foliões das Almas no Cemitério do Tatu
Serra da Canastra (MG)

Rezas e cânticos na Capela de Nossa Senhora das Graças
Itajuí (MG)

Fontes de referência:

Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade
Folia das Almas é atração no Parque da Canastra na Semana Santa
http://www.icmbio.gov.br/portal/ultimas-noticias/20-geral/3791-folia-das-almas-e-atracao-no-parque-da-canastra 

Sagarana
Preces para as almas
http://revistasagarana.com.br/religiosidade 

Mineiros . Com
Encomendação das almas
http://mineiros.com/encomendacao-das-almas 

"Encomendação das Almas"
Rito comum na Quaresma e em funerais

Assim era praticado o ritual da Recomendação das Almas 
(também chamado Encomendação das Almas, Cantoria pras Almas ou Folia das Almas), 
praticado com o objetivo e rogar preces em favor das almas dos mortos, 
visando seu progresso espiritual e alívio de penas.

Folia é um termo para designar festejos religiosos diversos, conhecidos também como "festança", caracterizados por brincadeiras e agitação ou qualquer aglomerado de pessoas que se juntam para algazarras celebrativas, principalmente quando esse evento tem um fundo religioso.
De origem popular, a folia é algo típico do catolicismo. A mais conhecida é a Folia de Reis, uma espécie de procissão masculina onde se canta em louvor ao Espírito Santo e pede a proteção contra doenças e pragas.

Fonte:
Livro: Encantamento da Sexta-Feira Santa: Manifestações do catolicismo no folclore brasileiro.
Autor: José Carlos Pereira
São Paulo: Editora Annablume, 2005 (p.155). 
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