domingo, 16 de agosto de 2020

Deriva



Andança

Depois de muitos anos, fui visitar tia Chiquinha. Ela continuava na antiga casa da cidade, agora com uma filha viúva. Apesar de quase paralítica e bastante idosa, estava lúcida e gostava de conversar.
Da cama aonde se encontrava recostada, seus olhos se concentraram em mim logo que entrei no seu quarto. 
– Entra, meu filho.
Depois de um momento de dúvida, olhou-me melhor e arriscou:
– Ocê é neto do Zezé, não é?
– Sou, sim senhora.
– Filho de qual é?
– Da Julieta.
– E como é que ela tá? Não aparece faz tempo!
– Vai bem! E a senhora, como vai indo?
– Eu? Como Deus é servido. A cabeça tá boa, o corpo é que não vale mais nada. Só saio daqui pela mão dos outros. Fiz tratamento, passei fora um tempo, não adiantou quase nada. Diz o médico que secou o óleo da espinha, fiquei dura das cadeira.
– E dormir, a senhora dorme bem?
– Durmo. E sonho muito. 
– Com quê?
– Com lugar onde morei, pessoal que conheci. Outro dia mesmo fui pra perto de Calafate, onde hoje mora o Anselmo meu filho.
– E como é que são as coisas?
– Igualzinho quando a gente vivia lá. A casa, o curral, a horta, tudo como antigamente, não é como agora não.
– E na Chapada, tem ido lá?
– Vou muito. Ontem mesmo fui lá.
– E o que a senhora fez?
– O de sempre: coei café, soltei as galinhas, aguei a horta...
– E moer cana?
– Muita, só vendo. Aquela tacha enorme, melado do pingo e ponto, rapadura.
– Tinha açúcar secando?
– Aquele colosso de jirau, de açúcar com umas pedras clarinha. Daquelas que derrete fácil na boca. Fica cheio de abelha no lugar.
– Que mais a senhora fez?
– Depois do almoço areei panela, aí fiquei olhando o fogão de lenha a passei a mão nele. Tinha uns buraco perto do forninho. Então pensei: esse fogão carece de um conserto, vou pedir Pedrinho pra chamar o Altino aqui em casa. Ele é vagaroso mas de confiança.
– Mais o quê?
– Fiquei alisando o fogão um tempo, sentindo ele na mão. Nessa hora eu acordei. Tava passando a mão nesse travesseiro, assim... meu fogão. Tem hora que eu fico pensando: se o corpo já não aguenta a vida, como é que a cabeça ainda consegue levar a gente pra cada lugar tão longe?

Texto adaptado do livro “Casos de Minas”, de Olavo Romano.
Págs. 171 e 173.
Edição: 1982

Livro - Casos de Minas

A memória de Minas Gerais recuperada em histórias e "causos" populares. Textos fluentes e com humor. O autor vai no fundo de sua memória e de lá resgata certas coisas que ele gostaria que não morressem: um som particular, um cheiro impregnado, bichos, gentes, situações. Ele não cai na arapuca das descrições, narra apenas. O estilo é limpo, sem maquiagem, e encaixa perfeitamente com as histórias. A sabedoria, a malandragem, a essência do homem de interior – está tudo aqui, inteiro e intacto. E sua linguagem é respeitada, sem deformações gráficas.

6 comentários:

  1. Coisa mias linda de se ler, é uma viagem nos sentidos vividos. Mineiro é assim proseia e sonha sem jogar palavras fora, usa o necessário.
    Se tem uma coisa que ninguém te toma, são so pensamentos e o sonhar, não importa o tempão e as distâncias.
    Belo texto.
    Grande abraço e juízo (pouco) !

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    1. Acho comovente a poesia espontânea e não intencional na simplicidade de algumas pessoas.
      Um abraço universal.

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  2. Valeu, Sylvio.
    Se vc como historiador e psicólogo tem interesse no tema dos sonhos, recomendo ALTAMENTE "O Oráculo da Noite - A História e a Ciência do Sonho", do Dr. Sidarta Ribeiro. É um neurologista notável vice-diretor do Instituto do Cérebro da UFRN. Ele examina o papel dos sonhos na história humana, sua realidade, especialmente pelo viés da neurofisiologia, da psicanálise, da medicina e da biologia molecular, e debate a questão das armadilhas de suas interpretações. Ótimo, mesmo!

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  3. O caso das andanças de Tia Chiquinha faz desejar saborear o libro todo!

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    1. Para mim esses casos são tão deliciosos quanto comer goiabada com queijo...
      Trem que não enjoa!

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